Não é uma posição partidária. Não é a constatação amarga de uma geração desiludida, nem o requisitório de um movimento de oposição que procura capitalizar a desconfiança. É um diagnóstico que os dados produzem por si próprios, que os politólogos de todas as sensibilidades formulam há duas décadas, e que a maioria dos cidadãos sente sem nem sempre saber nomeá-lo: a democracia tal como funciona hoje já não basta para responder aos desafios que as nossas sociedades enfrentam.
Dizer isto não é dizer que a democracia é má. É dizer que uma certa forma de democracia — representativa, nacional, fundada no sufrágio periódico e na delegação de poder — atingiu os limites daquilo que pode produzir no mundo em que vivemos. E que a questão já não é defendê-la ou atacá-la, mas compreender porque é que já não basta, para imaginar o que poderia vir completá-la.
O desfasamento entre a escala dos problemas e a escala das soluções
O primeiro problema é estrutural. As grandes crises contemporâneas — a desregulação climática, as desigualdades sistémicas, as pandemias, as migrações maciças, a instabilidade financeira global — são fenómenos que ignoram as fronteiras nacionais. Produzem-se à escala planetária, em temporalidades longas, com efeitos que se manifestam de forma diferente consoante as regiões e as gerações.
As democracias representativas, por seu lado, estão organizadas à escala nacional. Os seus mandatos duram quatro ou cinco anos. Os seus eleitores votam por interesses presentes e locais — o que é legítimo, mas estruturalmente insuficiente para produzir decisões à escala e ao horizonte em que os problemas se colocam. Um governo democraticamente eleito pode saber perfeitamente que determinada decisão é necessária para o bem das gerações futuras, e não a poder tomar porque ela lhe custaria votos no próximo escrutínio. Não é má vontade — é uma condicionante sistémica inscrita na própria arquitetura do sistema.
A captura das instituições pelos interesses organizados
O segundo problema é dinâmico. As democracias representativas assentam num princípio de igualdade formal: cada cidadão dispõe de um voto. Mas na realidade dos processos de decisão, nem todos os intervenientes dispõem dos mesmos meios de influência. Os interesses organizados — económicos, financeiros, industriais — desenvolveram capacidades de lóbi, de financiamento político e de produção de peritagem que lhes conferem um acesso aos decisores sem qualquer comparação com o do cidadão comum.
Não é uma conspiração. É uma dinâmica estrutural: aqueles que mais têm a ganhar ou a perder numa decisão são os que mais investem nos processos que produzem essa decisão. O resultado é previsível — as políticas públicas tendem a sobrerrepresentar os interesses dos intervenientes mais bem organizados e mais bem dotados de recursos, em detrimento dos interesses difusos, de longo prazo, ou não humanos, que não têm lóbi.
A desinformação como dissolvente do consentimento esclarecido
O terceiro problema é epistémico. A democracia representativa pressupõe que os cidadãos podem formar juízos suficientemente esclarecidos para escolher entre opções políticas. Não é uma exigência de perfeição — é uma condição mínima de funcionamento.
Ora, esta condição encontra-se hoje seriamente fragilizada. Não porque os cidadãos se tenham tornado menos inteligentes, mas porque o ambiente informacional em que formam os seus juízos mudou profundamente. A desinformação industrial, as bolhas algorítmicas, a saturação cognitiva produzida por fluxos de informação contínuos, a confusão deliberadamente mantida entre opinião e facto — tudo isto degrada a qualidade do consentimento sobre o qual assenta a legitimidade democrática. Um voto produzido num ambiente massivamente desinformado não é menos formal do que outro. Mas é menos livre.
O horizonte temporal truncado
O quarto problema é talvez o mais fundamental. Os sistemas democráticos atuais são estruturalmente míopes. Otimizam para o curto prazo — o mandato, o escrutínio eleitoral, o ciclo orçamental anual. Têm poucos mecanismos para integrar os interesses das gerações futuras, que não votam, nem os interesses do vivente não humano, que não tem representantes.
Não é uma questão de vontade política. Alguns países experimentaram comissários para as gerações futuras, conselhos do longo prazo, dispositivos de representação dos interesses não humanos. Estas experiências são interessantes, mas permanecem marginais face à arquitetura geral dos sistemas de decisão. A regra é sempre o curto prazo. A exceção é o longo prazo.
A Sageocracia, nos seus seis princípios, propõe inverter esta hierarquia. Não eliminar o curto prazo — as necessidades imediatas são reais e legítimas — mas deixar de aceitar que o curto prazo esmague sistematicamente o longo prazo nos arbítrios políticos.
O que este diagnóstico não diz
É importante precisar aquilo que esta constatação não implica.
Não implica que a democracia representativa deva ser abolida. As garantias formais que ela oferece — separação de poderes, direitos fundamentais, alternância pacífica — são conquistas cuja ausência custa infinitamente mais caro do que a sua presença imperfeita. Os países que as perderam ou nunca as tiveram sabem bem disso.
Também não implica que os eleitos atuais sejam pessoas de má-fé. A maioria dos intervenientes políticos funciona num sistema que os condiciona tanto quanto eles o pilotam. Mudar as pessoas sem mudar o sistema produz resultados dececionantes — uma observação que a história confirma regularmente.
O que o diagnóstico implica é que os desafios do século XXI apelam a complementos à democracia representativa — mecanismos capazes de integrar o longo prazo, de resistir à captura pelos interesses organizados, de fundar a legitimidade noutra coisa que não a mera maioria aritmética num dado instante.
É isto que a Sageocracia propõe ser. Não uma substituição, mas um complemento. Não uma negação da democracia, mas o seu aprofundamento.
« A perceção precede o poder. »
O livro La Sageocratie — Vers une société fondée sur la conscience, la syntonie et le vivant desenvolve em pormenor a análise dos limites dos sistemas atuais e a arquitetura dos complementos que a Sageocracia propõe acrescentar-lhes. Encontra-se em processo de submissão editorial e será publicado brevemente.